Apagão digital na Polícia Científica ameaça investigações e deixa a sociedade vulnerável


Governo deixa de renovar licenças de softwares e a partir de 15 de janeiro a Polícia Científica perderá a capacidade de desbloquear celulares, o que na prática significa um passe livre para o crime organizado, pedófilos e fraudadores

Uma crise com consequências devastadoras para a segurança pública, está prestes a explodir na Polícia Científica de São Paulo. Um despacho interno revela que o Núcleo de Perícias de Informática, responsável por analisar celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos, enfrentará um colapso operacional já no início de 2026. O motivo: a falta de renovação de licenças de softwares essenciais, uma decisão que parte da gestão orçamentária do Governo do Estado.

O golpe mais duro virá em 15 de janeiro de 2026, com o vencimento da licença do Inseyets, a principal ferramenta utilizada para o desbloqueio e extração de dados de dispositivos móveis. Sem ela, a polícia perde a capacidade de acessar o conteúdo de aparelhos apreendidos que estejam protegidos por senha, uma realidade em quase 100% das investigações atuais.

Para outras ferramentas vitais, como XRY e Axiom, cujas licenças venceram em 30 de dezembro de 2025, o cenário é de obsolescência programada. Elas continuarão funcionando, mas sem atualizações, tornando-se inúteis contra celulares e aplicativos lançados recentemente. Diante da situação, o Sindicato orienta aos peritos que registre nos laudos a "impossibilidade técnica" de realizar o exame. Assim, o profissional se preserva juridicamente diante da falha do Estado em produzir provas necessárias para que a Justiça seja feita.

O perito criminal e presidente do SINPCRESP Bruno Lazzari de Lima explica que estamos diante de “um desmonte deliberado da inteligência policial. O governo está, na prática, entregando um passe livre para o crime organizado, para redes de pedofilia e para estelionatários. Estão dizendo que a vida e o patrimônio do cidadão paulista não são prioridade", afirma.

A decisão de não liberar a verba para as renovações, segundo o sindicato, não pode ser tratada como um descuido. Os pedidos foram feitos, os processos tramitaram internamente e os alertas sobre o impacto na segurança pública foram dados previamente, conforme o processo SEI nº 060.00016039/2025-91. Mesmo ciente do risco, o governo optou por reter os recursos.

O impacto vai além dos muros da delegacia. Sem a prova digital, que hoje é a espinha dorsal de investigações complexas, a materialidade do crime simplesmente desaparece. Casos de fraudes bancárias, tráfico de drogas coordenado por aplicativos de mensagem e a perseguição de criminosos sexuais que se escondem na internet ficarão sem solução, levando à impunidade.

Lazzari reforça o sentimento de abandono da categoria e o risco para a sociedade. "É um sucateamento que beira o absurdo. Nossos peritos são alguns dos mais qualificados do país, mas estão sendo forçados a lutar com as mãos amarradas. De que adianta a Polícia Militar prender e a Civil investigar, se o Estado se recusa a financiar as ferramentas para provar o crime?", declara o presidente do sindicato.

Enquanto a tecnologia avança a passos largos nas mãos dos criminosos, a polícia paulista é forçada a regredir, deixando um vácuo perigoso que a impunidade não hesitará em preencher. A pergunta que fica é: quem se responsabilizará quando os próximos crimes não puderem ser solucionados por essa falha anunciada?

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