Sob Tarcísio, investimento na Polícia Científica despenca 78%

Enquanto o governo de São Paulo utiliza o marketing de "mão dura" contra a criminalidade, os dados oficiais da Lei Orçamentária Anual (LOA) revelam um cenário de terra arrasada na retaguarda da investigação criminal paulista. Sob a gestão de Tarcísio de Freitas, a Polícia Técnico-Científica (SPTC) caminha para um colapso estrutural sem precedentes. Entre 2023 e a projeção para 2026, a capacidade de investimento da instituição sofreu uma redução drástica de quase 78%. Os números expõem a transformação de uma unidade estratégica em um órgão que sobrevive quase exclusivamente para o pagamento de folha — que, apesar de consumir a maior parte da verba, ainda mantém os salários dos peritos paulistas entre os piores da categoria no Brasil —, perdendo a capacidade de se modernizar e acompanhar a sofisticação do crime organizado.
O desmonte começa pela base: a infraestrutura física. A Ação Orçamentária 1293, responsável pela construção e reforma de prédios e laboratórios, sofreu um corte severo. Em 2023, o patamar de investimento era de R$ 23,9 milhões; para 2025, o planejamento atingiu o piso histórico de apenas R$ 6,2 milhões — uma queda de 74%. Mesmo com a leve oscilação positiva prevista para 2026 (R$ 8,7 milhões), o montante representa apenas um terço do investido no início do ciclo, condenando as instalações do Instituto de Criminalística (IC) e do IML ao sucateamento.
“O orçamento de 2026 é o cenário do caos. Chegamos ao pior nível da série histórica com uma queda de 94% na capacidade de compra de tecnologia. Estamos assistindo ao apagão da prova material”, alerta Bruno Lazzari, presidente do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (SINPCRESP). Para ele, o reflexo é direto na impunidade: “Se o perito não tem ferramentas, o criminoso volta para a rua pela porta da frente. O governo Tarcísio está criando um 'apagão forense' que será sentido por décadas”.
Apagão digital e passe livre para o crime
O ponto mais alarmante do sucateamento é a paralisia da inteligência digital. O desmonte resultou na falta de verbas para a renovação de licenças de softwares vitais, como o Inseyets e o Axiom, ferramentas líderes mundiais na extração de dados de dispositivos móveis. Com as licenças vencidas desde o último dia 15, a perícia paulista perdeu a capacidade técnica de acessar conteúdos de celulares apreendidos.
Na prática, a falha representa um "passe livre" para redes de pedofilia, fraudes bancárias e o tráfico de drogas coordenado por aplicativos. Sem essas ferramentas, a materialidade das investigações é destruída. O sucateamento, denunciado pelo sindicato como uma escolha política consciente, força peritos qualificados a trabalharem de mãos amarradas, resultando na impossibilidade técnica de produzir provas que sustentem condenações.
Orçamento de R$ 10,00
O planejamento para a modernização tecnológica assemelha-se a uma "montanha-russa" de descaso. O ano de 2024 ficou marcado por valores que beiram o deboche: as linhas destinadas a novos equipamentos trouxeram dotações simbólicas de apenas R$ 10,00 e R$ 20,00. O colapso projeta-se para 2026: o orçamento para radiocomunicação e tecnologia, que era de R$ 22,6 milhões em 2023, caiu para irrisórios R$ 1,3 milhão.
“É um escárnio falar em 'Muralha Paulista' quando o orçamento destina apenas R$ 30,00 para tecnologia em um ano inteiro. O crime organizado investe milhões em criptografia e drones, enquanto o perito de São Paulo trabalha com equipamentos obsoletos. O governo está desarmando a ciência”, afirma Lazzari.
Ao somar todas as linhas de investimento (GND 4), o diagnóstico é terminal: a Polícia Científica saiu de um orçamento de R$ 47 milhões em 2023 para apenas R$ 10,2 milhões projetados para 2026. “O governo Tarcísio de Freitas, que se elegeu com a promessa de valorizar as polícias, fez o contrário: engessou a SPTC e retirou sua autonomia. Sem investimento em ciência, a segurança de São Paulo retrocede décadas, deixando a perícia desarmada diante de um crime cada vez mais tecnológico”, conclui o presidente do SINPCRESP.
